segunda-feira, 10 de maio de 2010

Novela sempre é novela,

... mas é revoltante.
Não desmereço o trabalho de nenhum diretor, roteirista, ator ou atriz, sonoplasta, maquiador, faxineiro ou qualquer outra coisa da Globo. Acho que o que eles fazem é perfeitamente válido e que eles são, porque não, cheios de sensibilidade para o trabalho das suas novelas emocionantes e lotadérrimas de lições de vida.
Mas quem assiste a Globo? É claro que a novela (sendo ela da própria Globo ou de qualquer outro canal) alcança, no mínimo, 90% da população que possuí contato com aparelhos televisores, e ela está mesmo mais voltada para a massa. E a massa, é necessário lembrar, não tem uma boa instrução ou a capacidade crítica necessária para avaliar algumas coisas (obrigada, escolas de todo o Brasil) - e não é que eles não entendam ou sejam incapacitados, eles só não tem esse tipo de avaliação desenvolvido e estimulado. 
Notícias que envolvem agressão ou ataques por parte de pessoas ditas comuns contra atores que interpretam vilões, por exemplo, não são novidades. Sim, muitas pessoas se baseiam nos personagens dessas novelas para tomar decisões ou aprimorar seus valores.
Então me vem essa Globo colocar a Teresa, personagem cujas ações e conceitos costumam ser um  tipo de modelo, dizer ao seu ex-marido, um homem traidor, ganancioso e sem o devido respeito pela figura feminina - nota-se por como ele trata a Dora, uma das moças com quem ele teve um caso - que ele precisa "de uma mulher que o ame sempre" e que "o perdoe várias vezes". Ou algo muito parecido com isso.

Calma.
Em primeiro lugar, perdoar é lindo, mas perdoar sempre é divino. Um ser humano que perdoa o outro sempre vai, sim, acabar se subjulgando e deixando claro que ali só pode haver alguma espécie de dependência. Perdoar é bom quando a outra pessoa muda ou parece disposta à isso, e perdoar sem que ela saiba o que está acontecendo não vai fazer com que nenhuma das partes cresça. Marcos, a meu ver, parece estar redescobrindo o quanto amava Teresa, mas em nenhum momento eu tive a certeza de que ele está ou estará arrependido. Acho que isso dificilmente aconteceria com alguém da sua personalidade, mas não que seja lá tão impossível.
O fato é que Teresa parece dizer que ele precisa de uma mulher passiva, dependente, que se anule e viva para amá-lo, respeitá-lo, perdoá-lo, como se fosse esse o papel de uma mulher. Perdoar sempre. Ser compreensiva mesmo quando foi machucada. Suportar grosserias? Maus tratos, então? Essas coisas não estão tão distantes umas das outras como parecem estar.

Segundo ponto: inversão de papéis. Algum homem diria o mesmo à uma mulher? Marcos, se fosse traído, diria o mesmo a Teresa? "Você precisa de um cara que perdoe todas as suas chifradas, suas mentiras, seus abandonos e esquecimentos... E que te ame apesar de tudo, sempre." Desculpe, acho que não. Acho, também, que só porque a mulher está começando a notar que pode viver sem um homem, ou pode vestir o que quiser independente da opinião masculina, ou que pode fazer decisões que não envolvam parceiros, não quer dizer que elas saibam lidar com a situação inversa à de ser submissa. E só porque os homens passaram a notar o espaço que as moças ocupam e o respeito que elas realmente merecem, não quer dizer que o machismo tenha acabado. Mulheres trabalham? Sim. 
Mas ainda cuidam da casa, não é?

Terceiro ponto: o que as pessoas que assistem a novela e se inspiram em Teresa vão pensar em fazer da próxima vez em que o cara que lhes deceu um tapa sobre o rosto, as traiu ou contou mentiras pedir perdão? Talvez não todas, talvez não seja uma epidemia realmente, talvez eu não tenha interpretado a profundidade do sentimento doentio  de Teresa ou o problema mental sentimental de Marcos, mas essas palavras foram um descuido. Que feio! Jurei que Teresa poderia se sair melhor nessa.




Tsc, tsc, what a bad example!

1 comentários:

Steph S. R. disse...

Novela, ainda mais de um canal que é uma potência delas até mundialmente, é sempre muito assistida, e sempre muito influenciável. Apenas pergunte a alguém ao seu lado na rua, em qualquer lugar, sobre o capítulo de ontem da novela das oito, e sempre vai ter alguém ligado a toda história e personagens. Novelas são influenciáveis no geral, quando até ditam de bordões a algumas modas na rua! (Mas, acho, isso pode ocorrer com qualquer grande programa com bastante público, vide BBB. Me lembro que, numa época, todas as garotas queriam um apetrecho de cabelo como a de uma participante, haha).

Não acho que é pelo quesito de um aprendizado a crítica e a separação do real ou não, existem pessoas e pessoas, e a maioria não espera nada mais de um novela do que se entreter - como uma música, filme... As pessoas só querem se divertir, nada mais, e fazem. E mesmo com o aprender a julgar, existem pessoas que, err, não julgam. Sadness. Enfim.

Porém, no final das contas, não sei ao certo quem influencia quem, na verdade. Autores escrevem algo que chame a atenção do público, o que façam sentir ligados - a maioria das novelas de sucesso tem um ar mais 'popular', do que um mais afastado do seu cotidiano, e sempre com núcleos - ou principais - da mesma maneira. Então, me vêem a pergunta: o que a Teresa disse não poderia soar familiar para uma parcela do público? Porque eu conheço mulheres como ela, que pensam como ela, ao menos. Homens, ao inverso? Difícil, até na ficção - e, se pensar bem, não vejo muitas mulheres esperando uma atitude dessas, é normal a mulher fazer isso, não o homem.

A mídia pode muitas solidificar coisas, mas a maioria delas já está impregnada na mente da grande maioria. Pena.

PS: Desculpa pelo comentário gigante, hehe.

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