segunda-feira, 20 de setembro de 2010

O que temos de aprender?

    Hoje um dos meus professores de português no Curso Positivo - a quem eu admiro muito, inclusive - disse uma coisa que me fez pensar. Ele comentou sobre como nossa geração tem um grande problema, e ele se resume na falta de interesse pelo saber. Não por estudos loucamente bitolados, mas pelo saber em si. O saber pelo saber. Conhecer algo porque tem de ser conhecido, porque só vai ser bom para você mesmo se conhecer. 
    Provei disso esse ano. As aulas não me ensinaram apenas que osmose é "do menos pro mais", mas que o estágio de desidratação de um náufrago só piora se ele comer, por exemplo, um peixe. Saber é legal. Você resolve alguns problemas sozinho. Você pode raciocinar e discutir o mundo a sua volta. Mas parece que poucos adolescentes se incomodam em aprender, não é? Concordo com o meu professor, nossa geração é um desastre no que diz respeito a conhecimento. Desprezando o pequeno número de exceções, posso afirmar que não vejo jovens cujos objetivos sejam algo como permanecer estudando.
    Independente de eles querem uma carreira ou não, se querem ser médicos ou músicos, eu jamais ouvi qualquer um que divide a geração comigo (e acho nesse caso não há exceções) comentar que encara o futuro como um tempo de constante estudo. Se estiver com sua empresa montada ou se for um funcionário público, continuar a estudar para quê? Com licença, todos os meus amigos e até quem não considero assim têm uma coisa em mente: não nasci pra essa vida de estudo, vou entrar na universidade e queimar essas merdas desses livros.
    Eu quero entrar na universidade. Não porque terei maior liberdade para freqüentar os botecos como todo mundo faz, ou para qualquer outra coisa desse tipo, mas porque quero conhecer esse lugar onde, dizem, mudam nossa cabeça por completo. Pretendo ser bacharel em Letra, pretendo continuar estudando nessa área que escolhi o resto da minha vida. É o que eu gosto, no fim das contas. Talvez eu seja uma exceção, ou talvez um dia eu mude de idéia, mas quer saber? Eu estou muito a fim de queimar minhas apostilas agora.
    Claro, isso é uma linguagem figurativa. Eu valorizo o dinheiro que meus pais usam na minha educação, e uma fogueira não é um modo de dizer que eu odeio tudo o que tentaram me ensinar, não. É um simbolo de liberdade. Quando queimamos nossos livros, não estamos esquecendo todo o nosso conhecimento e praticando vandalismo: estamos apenas dizendo chega!
    Sinceramente, minha geração pode ser o que for (e ela é muitas coisas, mesmo), mas eu acredito nela.  Um pouco. Quando você para pra observar, até que bastate gente que se salva. E eles podem não ser os maiores cientistas, mas eu tenho certeza de que o cérebro deles não é vazio e que eles não se resumem à encher a cara e a sentir preguiça.
     É só que ninguém parece ter parado para pensar que as coisas têm dimensões muito diferentes para esses jovens. O mundo é outro. Nossa visão de futuro também. Nossa ferramentas e possibilidades são totalmente diferntes. Tecnologia chegou com todo o seu imediatismo, e agora temos o tempo e espaço distorcidos. A moda e  a sexualidade  se tornaram totalmente abrangentes, onde nada é impossível. Conceitos que mais parecem um zoológico. Atitudes morais e anti-moralistas. Legalize a maconha, sou contra as drogas. Todos sabem que o seu pulmão fica preto e que seu fígado fica podre, mas eu fumo e bebo e tenho só desesseis. Aborto ilegal, estou grávida. Não sei quem é o pai. Ela é uma menina comportada. Eu menti. Fui assaltada, estou estressada, acho que ele está entrando em depresssão.  Acho que sou bipolar, cara. Ah, não me culpe, sou DDA. Tenho TOC. Sou propensa à falta de educação, o médico quem disse. Sim, e eu sou homossexual, tem algum preconceito? Meus pais não me entendem. Ninguém me ouve. Não sei quem eu sou. Resolvi que vou no psiquiatra. Frequento grupo de oração. Sou ateu. Acredito na minha própria religião. Sou mais eu do que você. Não confio em mim, nem um pouquinho. Será que estou gorda? Preciso de um regime.  Preciso daquela roupa, daquela sapatilha, daquela bota, daquela calça. Ela me deixa mais magra. Vou ser feliz quando eu comprar. Video game é vida. Geração video game vive num mundo a parte. Banalização da violência. Adolescente é atacada por um grupo de meninas na saída da escola. Não sei o que fazer. Será que sexos opostos gostam mesmo de serem pisados? Amor não existe. Terminei com meu namorado ontem, não aguentava mais aquele idiota. Sua vadia, vagabunda! Porra, caralho, tô fudido nessa prova. Que prova? Estudei merda nenhuma. Estudar pra quê? Político ganha grana e não estuda. Meu pai dá um jeito. Que se foda.
    Isso tudo e muito mais. Numa geração onde o que mais se observa são comportamentos contraditórios, precoces,  questionáveis, surpreendentes, corajosos e até inconsequentes, seria correto culpá-los? O que eles fazem, aprendem da onde? Seria correto também exigir que vissem a vida da mesma maneira que todas as gerações anteriores? Onde o conhecimento é o maior dom do ser humano? Para mim que estamos descobrindo que há muito mais entre o céu, o inferno, e os livros para se lidar.
   É legal conhecer as coisas, de verdade. Jovens não gostam de estudar, mas eles gostam de saber. São mais curiosos do que aparentam. Eu sei que gostam, e não falo isso por mim ou porque sou especialista, falo por todos aqueles adolescentes que gostam de serem elogiados. Não só com "lindo", ou os genéricos de sempre. É uma questão de ser reconhecido. De prestarem atenção em você, de ouvirem o que você tem a dizer sem fazer aquele mesmo comentário sobre sua imaturidade, intolerância, falta de visão ou fase rebelde e teen. Eles precisam ser vistos, e não apenas com essa imagem fixa de que são todos tolos e preguiçosos, desinteressados. Ou não lhe soa como um grito de socorro todas as atitudes desmedidas que vemos? Não tenho soluções, nem criticas à sociedade, porque criticar a sociedade é culpar um orgão maior do qual você mesmo faz parte - e isso não faz sentido. Estou dizendo apenas que um grande problema existe, e talvez ele não esteja na nossa geração. 
    Talvez a nossa geração esteja apenas aprendendo a lidar com os seus próprios problemas, e com os dos outros. O mundo nunca esteve tão próximo, e tão distante, artificial. Nada mais é capaz de surpreender. As coisas são um caos, e todo mundo parece aceitar de bom grado que o caos exista, desde que não o atinja. Não é somente a nossa geração que faz isso - aliás, os professores de minhas duas últimas escolas pareciam todos ter um ponto em comum, mostrar como podemos fazer algo desde que façamos. É lógico que podemos ajudar, basta ajudar então! É tempo de mudar o modo de ver as coisas.
     As pessoas nunca foram tão questionadas sobre si mesmas, sobre tudo, sobre os títulos que carregam. Você é de esquerda ou de direita? Justin Bieber ou Rock? Gótica ou colorida? Quais são seus objetivos? De quem você mais gosta, do papai ou da mamãe? Vai ficar com ele ou vai perder essa chance?  Você não sabe quem é Woody Allen? Você não tem um plano? O que vai ser quando crescer?
    Na época de nossos pais e avós, era premeditado. As pessoas decidiam por eles. Agora você decide, e decide cedo demais. Sem base nem maturidade. O que esperar disso?
    Antes de  afirmar o desinteresse alheio, acho que as pessoas deveriam reavaliar. Reavaliar o contexto, pensar que a responsabilidade pelo jeito que os jovens têm de encarar a vida não pode ser atribuída somente a eles próprios. Ninguém se faz sozinho. E as pessoas são diferentes. Porque você gosta de estudar tudo, até o que não te desperta tesão nenhum, eu não tenho de ser igual. Tenho? É tudo muito relativo, mas não dá para ver o quanto as pessoas também são relativas?
    Por que tantos títulos e concepções unilaterais? Ser ou não ser, não: ser e ser. Podemos ser tudo o que quisermos. Podemos ter limites. Podemos seguí-los. Podemos estudar algo que não sejam matérias escolares, e pensar em algo que não seja a liquidação no shopping. Podemos ser mais suaves e educados, e menos radicais e sistemáticos com tudo. Podemos respeitar os outros.
    Estamos aprendendo a lidar com nós mesmos. Com o que sentimos e estamos a desobrir, os outros também sentem. Estamos aprendendo. Estamos engatinhando.
    E vocês também.




1 comentários:

Rebeca disse...

GIO! bom texto, eu concordo com vc! Mas, esse não é um problema da nossa geração, acredito que toda juventude é assim, mas perguntas que respostas! VC DISSE TUDO 'Nada mais é capaz de surpreender.' TOTAL, sério. tá tudo tão superficial!
saudades de vc flooor! beijos

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