quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Após o início

Hum, o post anterior tem continuação agora, olha só! To virando gente! 
Boa leitura, pra qualquer um que vá ler.

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    Como em todos os outros dias úteis (ou mais inúteis do que propriamente úteis), Angeline estava indo para o colégio. O fato de ser seu aniversário não mudava sequer isso, e também não trazia o colégio para mais perto, como ela gostaria que fosse. E poderia ser, caso sua mãe concordasse em deixá-la na escola - a única - que havia em Hythe. As coisas não mudaram de lá para cá, mesmo, pensou a garota. Bem, ao menos suas pernas não atrofiaram com todos os muitos metros que ela tinha de andar.
    E não só por terra. Antes de colocar os pés em Southampton e atravessar algumas quadras para chegar até o Saint Lucy Western College, era necessário atravessar o braço de mar que separava as cidades. Para isso, o bom e velho firebolt estava à sua espera, sempre as oito da manhã, com seu amigável trem de duzentos anos que levava os passageiros até o fim do pier - onde eles finalmente embarcavam. Era uma viagem. Curta em termos viajantes, mas uma verdadeira viagem.
    Entretanto, Sra. Henckel sabia tão bem quanto Angeline que era até melhor que fosse assim.  A garota não gostava de ficar em casa, porém, não tinha muitos lugares para ir. Esse longo caminho até a escola ocupava seu tempo. E esse tempo, Angeline não se importava nenhum pouco de perder.
    Mas se ao menos eu pudesse dirigir... Era o que ela sempre pensava ao observar as pessoas quando chegava ao cólegio. As mesmas pessoas de sempre, já que Angeline procurava evitar atrair olhares. Nunca funcionava, mas para quê provocar o diabo com a vara curta? Seus olhos vagaram pelo estacionamento, com a visão entrecortada pelas grades brancas do portão. E então, acharam a primeira pessoa.
    Lá estava o tão amado e cortejado Facchini. Como sempre muito pontual, parecendo educado demais, ao contrário da maioria das garotas que se amontoavam em torno dele, sem a devida noção de espaço pessoal.
    Como Angeline, ele também morava em Hythe. Seu pai era um senhor de négocios metido a dono do porto, que não temia enfregar na cara de ninguém aquela montanha de dinheiro que possuía. Seu patrimônio e influência o orgulhavam mais que a bela família por ele construída. Mas o seu filho não apreciava esses modos. Não, Damien Bauer Facchini queria se ver livre do motorista tanto quanto Angeline queria tê-lo para si.
    Em seguida, como sempre, ela procurou o melhor amigo de Damien - em quem, inclusive, sua mãe apostava sonhos e esperanças de uma reputação salva por um casamento de sobrenomes. "Ele está na sua sala." "Eu sei, e eu não me importo." "Angeline Henckel Facchini. Não soa bem para você?" "Não". Mas esses sonhos Angeline jamais realizaria, nem que pudesse. Nem que quisesse. E não era algo para ser posto em dúvida.
    A única dúvida era como Facchini e Newman podiam ser tão amigos, visto que Evan Newman em nada se parecia com Damien. O primeiro, um rocker escandaloso demais para os pacatos anos 50. O segundo, um perfeito e impecável teddy boy, ao ponto de fazer inveja em todos os que usavam ternos ou tinham cabelos bem penteados. Mas, ainda que estivessem enquadrados em rótulos, ambos tinham um ponto em comum, sim. Eles dois  os ignoravam.
    E Angeline também.
    Será que ele vai faltar de novo? Perguntou-se a garota, desviando os olhos quando o grupo que envolvia Damien a notou ali, adentrando os portões. A resposta veio rápida: o ronco da motocicleta já podia ser ouvido, há um quarteirão dali. Newman estava a caminho. E o cheiro de confusão já infestava o pátio.
    Como sempre, Angeline entrava na escola com os ossos dos pés latejando e fingindo já estar acostumada. Como sempre, Facchini parecia a única luz num grupo de trevas que a encarava. E, como sempre, Newman acelerava demais sua moto para quem está num estacionamento pequeno.
    Tudo estava igual, e tão normal que doía em sua alma. E parecia sufocar o quanto as cenas e as palavras se repetiam. "Como foi a noite, Angeline?" "Quantos foram na noite, você quis dizer..." e comentários no estilo eram ouvidos por entre murmúrios que deveriam ser apenas mais uma piada na roda, e a garota fechava os ouvidos enquanto Damien sentia o ímpeto de estrangular alguém crescendo dentro do seu peito.
    Do outro lado do pátio, Evan pulou de sua motocicleta já cumprimentando outros do seu bando infernal, com suas jaquetas de couro gastas e allstars que mais pareciam ter saído de um pisoteamento em massa. Seria até simpático aos olhos de Angeline, se não a enjoasse. Mas, ah, os ternos engomados enjoavam ainda mais. E os vestidos... Deus, o que ela usava era o pior de todos. A cintura era tão marcada e a saia era tão rodada. Era tudo tão perfeito, tudo em seu lugar, tudo uma farsa. As roupas coçavam por dentro e as sapatilhas apertavam, o corpete sufocava. A vontade era de rasgar tudo, se livrar daquelas roupas que mais pareciam uma teia a grudar sua mentira na pele, jogar tudo no chão, passsar por cima como se não tivesse visto.
    Se Evan ouvisse esses pensamentos, completaria com: "e atear fogo! Tenho um fósforo, quer?". Quem sabe Angeline concordaria. E talvez Damien, tirando a parte de atear fogo - poderiam se machucar fazendo isso.
    Mas nessas épocas, eles não sabiam que concordavam em muitas coisas. Não ainda.

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