domingo, 24 de outubro de 2010

Um início

Esse capítulo é mais um dos muitos que eu tenho como o primeiro da minha história. Sei lá, depois de dois anos escrevendo eu me lembrei que existe a terceira pessoa - e isso talvez seja a solução dos meus problemas. Daí escrevi isso. Mas, de qualquer forma, eu resolvi postar esse texto aqui porque eu gosto dele. Ele é um norte para mim em termos de escrita, pelo menos por enquanto, e espero que eu não mude de idéia daqui duas semanas (como sempre faço).  E chega de falar, aqui está o pequetito:


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Hythe, Hampshire, sete de abril de 1957
Querido Diário,
 
    Você foi meu presente de quinze anos. Agora estou fazendo dezesseis, e acho que já é uma boa idade para te jogar fora, principalmente se levarmos em conta o fato de que eu nunca escrevi nada nessas suas folhas podres.
    Foi um ótimo ano com você guardado na gaveta, mas não leve pelo lado pessoal. A gente recorre a muitos meios quando quer atingir uma pessoa. Mesmo que essa tal pessoa nunca venha a saber disso.
Espero que aproveite o lugar para onde esteja indo, seja ele onde for.

Adeus
Angeline

    
    A garota encarou as letras apressadas sobre o papel velho, amarelado. Estreitando os olhos para o pequeno livro que tinha nas mãos, sentiu algo crescer em sua garganta. Mas aquilo não vinha do apego, imagine só. Era justamente o desapego. Até um simples e adorável diário, com uma fita amarelo-claro que o circulava e uma capa adornada por rendas brancas e rosadas, era capaz de gerar ódio dentro dela. Mas não era o diário, era o que ele representava.
    - Ridículo – murmurou Angeline, atirando seu livro de páginas vazias à lareira que estava a sua frente, e que finalmente tinha servido para algo além de queimá-la.
    Dezesseis, enfim. Segundo sua tia, Ada Henckel, a data dos dezesseis anos de uma mulher é sempre muito marcante. Porém, segundo sua mãe, Sra. Henckel, aos dezenove é que a vida começaria de verdade. Mas já haviam lhe dito coisas do mesmo gênero sobre os quinze anos também, e nada de vida nenhuma começar. Onde estava a parte legal de ser aniversariante?
     E de quê adiantaria ela ter dezesseis agora? Sua mãe, já sabendo que a garota queria arrumar um trabalho, se colocara contra essa decisão. Mesmo que agora sua filha tivesse idade para isso, Sra. Henckel preferia vê-la bem casada, e respeitada por isso, ao invés de assisti-la trilhando o mesmo caminho que o seu. Uma mulher que trabalhava, numa vila onde mulheres não trabalhavam. Mas Angeline pouco se importava com isso. Ela sequer queria viver naquela vila pelo resto de sua vida.
    - O que você ainda está fazendo de pé?
    Num sobressalto, a garota se virou para a porta da sala, sem se levantar da cadeira em que estava. Boa noite, mãe. Estava esperando você para comemorar. - Eu... - Começou, sem saber exatamente o que devia dizer à mulher que adentrava a sala, com movimentos de alguém que está pronto para cair numa cama e desmaiar. Domingos de bares cheios, Southampton era de surpreender. - É que... - Se virando para a lareira novamente, Angeline soube exatamente qual mentira tecer. A mais simples e fácil. Nunca gerava problemas. - Eu não consegui dormir.
    - Mas precisa - respondeu Sra. Henckel, jogando uma bolsa grande sobre o antigo sofá azul marinho, onde estava impregnado o cheiro de seus cigarros. - Vai acabar acordando tarde. 
    - Eu não costumo me atrasar.
    - Saia desse fogo, não está tão frio assim.
    Deixando a cadeira para que sua mãe pudesse ocupá-la, Angeline se levantou e passou um breve olhar pela lareira, para se certificar de que seu diário já estava reduzido à cinzas. Nenhum rastro, nenhuma prova que pudesse ser usada contra ela. Até o lápis tinha ido ao fogo junto com seu livro. Finalmente estava livre deles.
    Mas ela queria poder se ver livre de muitas coisas mais.
    - Boa noite - seus passos leves ecoaram pela sala quando ela se pôs a subir as escadas de madeira, que rangiam levemente com seu peso de, no máximo, quarenta e alguma coisa quilos. Não tinha muita estatura, nem muita gordura, nem muitos músculos, e os seus sentimentos, embora pesados, não podiam ser mensurados.
    - Angeline.
    Diante disso, ela nem sequer se deu ao trabalho de virar. Apenas parou onde estava, nos degraus, sentindo o frio que vinha de cima, onde era o seu quarto. O que teria feito de errado agora? Ou será que deixara passar algo na lareira? Entretanto, com o murmúrio de sua mãe a acender um cigarro, tudo o que ela faria seria abrir um sorriso e mantê-lo suavemente sobre o rosto quando se deitasse, e até que seus olhos se fechassem.
    - Feliz Aniversário.

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